Não é de hoje que grandes sucessos do cinema trazem atrelados a suas tramas uma certa dose de filosofia, eu já citei Matrix, V de Vingança e Gênio Indomável. Agora eu resolvi pegar um a produção da década de 80 que acredito, todos já devem ter assistido (inúmeras vezes). Ferris Bueller's Day Off ou Curtindo a Vida Adoidado como foi traduzido no Brasil, é um filme americano que trás uma filosofia helenista em sua trama, mais precisamente podemos dizer que é uma Mensagem de Epicuro. Mas antes de irmos diretos ao assunto, vamos esmiuçar um pouco o filme (caso haja um pobre coitado que nunca tenha assistido a essa verdadeira obra de arte).
Sobre o Filme

- Pôster de Curtindo a Vida Adoidado
Ferris Bueller's Day Off foi lançado em 11 de junho de 1986 sobre a direção de
John Hughes, considerado "
o mestre dos filmes adolescentes dos anos 80". O filme conta a história de um jovem meio malandro que para aproveitar a um pouco mais a vida, finge estar doente para matar aula junto com sua namorada e o melhor amigo,é visto pela
crítica moderna como um clássico e um paradigma do
cinema da década de 1980, notável por ser uma obra cinematográfica que o
espectador não se cansa de rever (eu mesmo já devo ter visto mais de 30 vezes, e agora que comprei o DVD vou ter o que assistir quando começar o BBB) - muito embora a maior parte das apreciações iniciais tenha sido negativa pois para as autoridades politicas-educacionais da época, ver um filme que fala de matar aula e "vadiar" ganhando fama e fazendo muito sucesso não é muito agradável.
Sempre que assisto me lembro dos tempos de escola, quando todos enfrentam aulas chatas e professores enfadonhos e das muitas vezes que pulava muros e janelas da escola para escapar das tediosas palestra sobre tabagismo ( eu nem nunca fumei! ^^), educação sexual (chegaram tarde, tudo tentaram me dizer eu já sabia desde os 9 anos rsrsrsrss) e segurança nas ruas ( ah tah, na época as carroças e bicicletas né?). Matar aulas (quando você nota que nem os "professores" sabe o que tão falando) pra tomar banho de lagoa, ir pescar com os amigos, pular cercas pra pegar pitomba, siriguela, manga e umbu, ou pra uma passadinha na casa da paquera (fazer o que era assim que o pessoal dizia, e cá entre nós, hoje chamam de cada coisa que não vou nem colocar aqui O.O) é mais do que recomendando.
Um rápido resumo (
ALERTA DE SPOILER): Toda a história do filme passa-se na cidade de
Chicago; era o dia 5 de junho de 1985. Ferris Bueller é um jovem aluno do último ano do colegial e pretende faltar a todas às aulas daquele dia. Assim, finge estar doente, enganando os pais, mas não a irmã Jeanie (Jean/Shauna), que se revolta com os sucessos dos planos do irmão.
Tão logo se vê sozinho em casa Ferris prepara seu quarto para simular sua presença, e convoca seu melhor amigo que é
hipocondríaco, Cameron Frye, a pegá-lo em casa. Enquanto isto o diretor do colégio, Sr. Rooney, telefona para a Sra. Katie Bueller para comunicar a falta do filho. Ferris naquele ano, ao contrário de seu desejo de ganhar um carro, foi presenteado com um computador e, enquanto o diretor vê em seu monitor (ecrã) as nove faltas do aluno, Ferris invade o sistema do colégio e as reduz para somente duas. A mãe confirma, entretanto, que o jovem estava realmente doente e o diretor fica com cara de bunda (rsrsrsrs foi mau, não resisti ^^).

- O quadro Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de Seurat, obra que fascinou Cameron
Assim, depois de conseguir levar Sloane (a namorada de Ferris), os três partem para o centro de Chicago, onde começa a série de aventuras. Guardando a Ferrari numa garagem pública, não percebem que dois garagistas decidem aproveitar a oportunidade para dar um rolé pela cidade com o carro, o que se diga de passagem muitos manobrista fazem. Dali, começam as tramóias de Ferris, que incluem fazer-se passar pelo "Rei da Salsicha de Chicago" (um dos melhores momentos do filme) e assim obterem uma mesa no exclusivo restaurante "Chez Quis", visita a museu (
Art Institute of Chicago, onde Cameron parece se identificar com uma criança retratada por
Georges-Pierre Seurat), ida ao
Wrigley Field, estádio da equipe de
beisebol Chicago Cubs, ao
Sears Tower e até a participação numa parada alemã, em que Ferris faz toda a cidade dançar ao som de
Twist and Shout dos
Beatles.

- Ferris cantando Twist and Shout na parada alemã.
Enquanto isto os alunos do colégio, acreditando que Ferris esteja verdadeiramente muito doente, iniciam uma campanha de arrecadação de fundos para comprarem-lhe um novo rim. Em várias partes da cidade, não apenas do colégio, a notícia da doença do jovem se espalha, bem como a campanha "Save Ferris" ("Salve Ferris"), que será lida em vários momentos do filme: numa imensa caixa d'água redonda, na porta do estádio de beisebol, no caderno de um aluno, etc.
Os três amigos encerram as brincadeiras e voltam à garagem, justo no momento em que o carro deles chega do passeio. A quilometragem, que imaginaram ser reduzida, estava três vezes maior que a originalmente marcada. Cameron fica em estado de choque e assim permanece por um bom tempo, sendo colocado pelo casal amigo numa cadeira junto à piscina de sua casa, enquanto os outros dois se banham, imaginando como farão para solucionar o problema.
"Uma simples descrição do enredo não faz justiça a este filme, como nenhuma descrição sumária de enredo não faz justiça a uma boa comédia (...) não se esqueça de ficar até o final dos créditos."
– Peter Reiher
A Mensagem:
O filme trata muito dos prazeres da vida, como a vida é curta, como os bons momentos cercados de amigos e amores devem ser valorizados e multiplicados.
Epicuro de Samos (341 a.C.,
Samos — 271 ou 270 a.C.,
Atenas) foi um
filósofo grego do período
helenístico. Seu pensamento foi muito difundido e numerosos centros epicuristas se desenvolveram na
Jônia, no
Egito e, a partir do
século I, em
Roma, onde
Lucrécio foi seu maior divulgador.

- Um Guia Para A Felicidade.
O propósito da filosofia para Epicuro era atingir a felicidade, estado caracterizado pela
aponia, a ausência de dor (física) e
ataraxia ou imperturbabilidade da alma. Ele buscou na natureza as balizas para o seu pensamento: o homem, a exemplo dos animais, busca afastar-se da dor e aproximar-se do prazer. Estas referências seriam as melhores maneiras de medir o que é bom ou ruim. Utilizou-se da teoria atômica de Demócrito para justificar a constituição de tudo o que há. Das estrelas à alma, tudo é formado de átomos, sendo, porém de diferentes naturezas. Dizia que os átomos são de qualidades finitas, de quantidades infinitas e sujeitos a infinitas combinações. A
morte física seria o fim do corpo (e do indivíduo), que era entendido como somatório de carne e alma, pela desintegração completa dos átomos que o constituem. Desta forma, os átomos, eternos e indestrutíveis, estariam livres para constituir outros corpos. Essa teoria, exaustivamente trabalhada, tinha a finalidade de explicar todos os fenômenos naturais conhecidos ou ainda não e principalmente extirpar os maiores medos humanos: o medo da morte e o medo dos deuses. Naqueles tempos, Epicuro percebeu que as pessoas eram muito supersticiosas e haviam se afastado da verdadeira função das religiões e dos deuses. Os deuses, segundo ele, viviam em perfeita harmonia, desfrutando da bem-aventurança (felicidade) divina. Não seria preocupação divina atormentar o homem de qualquer forma. Os deuses deveriam ser tomados como foram em tempos remotos, modelos de bem-aventurança que servem como modelo para os homens e não seres instáveis, com paixões humanas, que devem ser temidos.
Desta forma procurou tranquilizar as pessoas quanto aos tormentos futuros ou após a morte. Não há por que temer os deuses nem em vida e nem após a vida. E além disso, depois de mortos, como não estaremos mais de posse de nossos sentidos, será impossível sentir alguma coisa. Então, não haveria nada a temer com a morte. No entanto, a caminho da busca da felicidade, ainda estão as dores e os prazeres. Quanto às dores físicas, nem sempre seria possível evitá-las. Mas Epicuro faz questão de frisar que elas não são duradouras e podem ser suportadas com as lembranças de bons momentos que o indivíduo tenha vivido. Piores e mais difíceis de lidar são as dores que perturbam a alma. Essas podem continuar a doer mesmo muito tempo depois de terem sido despertadas pela primeira vez. Para essas, Epicuro recomenda a reflexão. As dores da alma estão frequentemente associadas às frustrações. Em geral, oriunda de um desejo não satisfeito.
Encontra-se aqui um dos pontos fundamentais para o entendimento dessa curiosa doutrina, que também foi tomada por seus seguidores e discípulos como um
evangelho ou boa nova, o equacionamento entre dores e prazeres.
Das 300 obras escritas pelo filósofo, restaram apenas três cartas que versam sobre a
natureza, sobre os
meteoros e sobre a
moral, e uma coleção de pensamentos, fragmentos de outras obras perdidas. Estas cartas, com os fragmentos, foram coligidos por
Hermann Usener sob o título de
Epicurea, em 1887, mas mais tarde descobriu ser de Leucipo para
Hermann Diels. Por suas proposições filosóficas Epicuro é considerado um dos precursores do pensamento anarquista no período clássico.
PRAZER e DESEJOS: A doutrina de Epicuro entende que o sumo bem reside no
prazer e, por isso, foi uma doutrina muitas vezes confundida com o
hedonismo. O prazer de que fala Epicuro é o prazer do sábio, entendido como quietude da mente e o domínio sobre as emoções e, portanto, sobre si mesmo. É o prazer da justa-medida e não dos excessos. É a própria Natureza que nos informa que o prazer é um bem. Este prazer, no entanto, apenas satisfaz uma necessidade ou aquieta a dor. A Natureza conduz-nos a uma vida simples. O único prazer é o prazer do corpo e o que se chama de prazer do espírito é apenas lembrança dos prazeres do corpo. O mais alto prazer reside no que chamamos de
saúde. Entre os prazeres, Epicuro elege a amizade. Por isso o convívio entre os estudiosos de sua doutrina era tão importante a ponto de viverem em uma comunidade, o "Jardim". Ali, os amigos poderiam se dedicar à filosofia, cuja função principal é libertar o homem para uma vida melhor.
Epicuro classificou os desejos humanos dessa forma:
Desejos Naturais:
2. Simplesmente Naturais (variações de prazer, a busca do agradável)
Desejos Frívolos:
OBS: Vale apena ressaltar que o próprio Epicuro pedi moderação nos atos pois o prazer em demasia se torna vicio e vicio não trás felicidade.
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