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terça-feira, 24 de novembro de 2015

10 páginas de Career Of Evil em português

O ano de 2016 não está sendo só aguardado pelos filmes da Marvel e da DC mais também pela promessa do lançamento de títulos muito aguardados como Os Ventos do Inverno (As Crônicas de Gelo e Fogo), rumores de um novo livro de Dan Brown e novos títulos de J. K. Hownling. E falando nisso, pros que não aguentam mais a espera pelo Career Of Evil (Profissão do Mal numa tradução livre) aqui estão as 10 primeiras páginas da terceira aventura de Cormoran Strike.


Traduzido por: Luiza Miranda. Revisado por: Pedro Martins. Texto original publico nos jornais The Guradian e Time.




PRIMEIRO CAPÍTULO

2011

Este Não é o Verão do Amor

Ele não havia conseguido se livrar de todo o sangue dela. Uma linha escura, como um parêntese, jazia sob a unha do seu dedo médio esquerdo. Ele se pôs a removê-la, apesar de gostar bastante de vê-la ali: uma lembrança dos prazeres do dia anterior. Depois de um minuto de raspagem em vão, ele colocou a unha sangrenta na boca e chupou. O amargor do ferro o remeteu ao grande fluxo que escorrera desenfreado pelo chão de azulejos, respingando nas paredes, encharcando seus jeans e transformando as toalhas de banho cor de pêssego – macias, secas e dobradas com cuidado – em trapos ensopados de sangue.

As cores pareciam mais vibrantes naquela manhã e o mundo, um lugar mais agradável. Ele se sentia sereno e revigorado, como se a houvesse absorvido, como se a vida dela houvesse sido transferida para dentro dele. Uma vez que os matasse, eles pertenciam a você: era um prazer muito superior ao sexo. O simples fato de saber quais eram suas expressões no momento da morte era uma intimidade que ia além de qualquer coisa que dois corpos vivos podiam experimentar.

Com um sentimento de entusiasmo, ele refletiu que ninguém sabia o que ele havia feito, nem o que planejava fazer em seguida. Ele chupou o dedo médio, feliz e plácido, recostado na parede morna ao sol fraco de abril, seu olhar voltado à casa do outro lado da rua.

Não era uma casa elegante. Comum. Inegavelmente um lugar melhor para morar do que o minúsculo apartamento onde sacos de lixo preto com as roupas enrijecidas de sangue de ontem aguardavam incineração, e onde suas facas, reluzentes depois de lavadas com água sanitária, haviam sido socadas em um compartimento debaixo da pia da cozinha.

Esta casa tinha um pequeno quintal na frente, uma cerca preta de metal e o gramado que precisava ser podado. Duas portas brancas haviam sido espremidas lado a lado, dando a entender que a construção de três andares fora convertida em apartamentos superiores e inferiores. Uma garota chamada Robin Ellacott morava no térreo. Mesmo que estivesse determinado a descobrir o seu verdadeiro nome, ele mentalmente a chamava de A Secretária. Ele acabara de vê-la passando em frente à janela projetada, facilmente reconhecida pelo seu cabelo brilhante.

Observar A Secretária era um extra, um bônus prazeroso. Ele tinha algumas horas de folga, então decidira vir e olhar para ela. Hoje era um dia de descanso, entre as glórias de ontem e de amanhã, entre a satisfação do que fora feito e a empolgação para o que aconteceria em seguida.

A porta da direita se abriu inesperadamente e A Secretária saiu, acompanhada de um homem.

Ainda encostado na parede morna, ele fitava o resto da rua, com a silhueta voltada para eles de tal modo que parecesse estar esperando por um amigo. Nenhum dos dois prestou atenção nele. Eles se afastaram subindo a rua, lado a lado. Depois de lhes dar um minuto de vantagem, ele decidiu segui-los.

Ela usava jeans, uma jaqueta leve e botas rasteiras. O longo cabelo ondulado ficava ligeiramente ruivo agora que ele a via sob a luz do sol. Ele pensou notar uma certa limitação entre o casal, que não conversava entre si.

Ele era bom em desvendar pessoas. Ele havia desvendado e seduzido a garota que morrera ontem entre as toalhas cor de pêssego encharcadas de sangue.

Mais adiante na longa rua residencial, ele os acompanhava com as mãos nos bolsos, vagando como se fosse em direção às lojas, os óculos de sol adequados para esta brilhante manhã. As árvores balançavam suavemente com a leve brisa da primavera. No fim da rua, a dupla à frente virou à esquerda em uma avenida larga, movimentada, ladeada por escritórios. Janelas de vidro cintilavam com os raios de sol à medida que eles passavam pelo prédio da câmara municipal de Ealing.

Agora, o colega de quarto, ou namorado, ou o que quer que ele fosse – vaidoso e de maxilar quadrado – d’A Secretaria estava falando com ela. Ela respondeu rapidamente e não sorriu.

Mulheres eram tão mesquinhas, malvadas, sujas e pequenas. Vadias rabugentas, todas elas, esperando que os homens as façam felizes. Apenas quando jaziam mortas e vazias na sua frente era que se tornavam puras, misteriosas e até maravilhosas. Naquele momento, elas eram inteiramente suas, incapazes de discutir ou lutar ou ir embora, suas para você fazer o que desejasse com elas. O cadáver da outra tinha ficado pesado e mole ontem, depois que ele drenou todo o seu sangue: seu passatempo em tamanho real, seu brinquedo.

Ele seguiu A Secretária e seu namorado pelo movimentado shopping Arcadia, deslizando atrás deles como um fantasma ou um deus. Será que os compradores de sábado conseguiam vê-lo, ou ele havia de alguma forma se transformado, duplamente vivo, agraciado com a invisibilidade?

Eles haviam chegado em um ponto de ônibus. Ele se demorou ali por perto, fingindo olhar através da porta de um restaurante de curry, as frutas empilhadas na frente de uma mercearia, máscaras de papelão do Príncipe William e Kate Middleton penduradas na janela de uma banca, tudo enquanto observava o reflexo do casal no vidro.

Eles pegariam o número 83. Ele não tinha muito dinheiro nos bolsos, mas estava gostando tanto de acompanhá-la que ainda não queria que isso acabasse. Ao embarcar depois deles, ele ouviu o homem mencionar Wembley Central. Ele comprou uma passagem e os seguiu escada acima.

O casal se acomodou lado a lado, bem na frente do ônibus. Ele escolheu um lugar não muito longe, próximo de uma mulher mal-humorada a quem ele forçou que afastasse as sacolas de compras. Ora ou outra, as vozes deles podiam ser ouvidas sobre o murmúrio dos outros passageiros. Quando não estavam conversando, A Secretária olhava através da janela, séria. Ela não queria ir para seja lá onde estivessem indo, ele tinha certeza disso. Quando ela afastou uma mecha de cabelo dos olhos, ele notou que ela usava um anel de noivado. Então ela ia se casar… ou assim ela pensava. Ele sorriu discretamente por trás da gola levantada da sua jaqueta.

O sol quente do meio-dia atravessava as janelas sujas do ônibus. Um grupo de homens embarcou e ocupou os assentos restantes. Alguns usavam camisetas de rugby vermelhas e pretas.

Subitamente, ele sentiu que o brilho daquele dia havia se apagado. Aquelas camisetas, com a lua crescente e a estrela, remetiam-no a coisas de que ele não gostava. Elas o lembravam de um tempo em que ele não se sentia como um deus. Ele não queria que este dia feliz fosse manchado por memórias antigas, memórias ruins, mas sua euforia de repente começou a se esvair. Nervoso – um adolescente do grupo o encarou, mas logo virou o rosto, alarmado –, ele se levantou e voltou para as escadas.

Um pai e seu pequeno filho se agarravam firme a barra do lado das portas do ônibus. Uma explosão de raiva na boca de seu estômago: ele deveria ter tido um filho. Ou melhor, ele ainda devia ter um filho. Ele imaginou o menino parado ao seu lado, admirando-o, considerando-o um herói – mas seu filho não estava mais ali, e era tudo culpa de um homem chamado Cormoran Strike.

Ele iria se vingar de Cormoran Strike. Ele iria devastar a vida dele.

Quando desceu na calçada, ele ergueu o olhar para as janelas frontais do ônibus e avistou pela última vez a cabeça dourada d’A Secretária. Ele a veria em menos de vinte e quatro horas. Essa ideia acalmou a raiva repentina que o acometeu com a visão daquelas camisetas do Saracens. O ônibus partiu com um ruído e ele tomou a direção contrária, tranquilizando-se enquanto caminhava.

Ele tinha um plano maravilhoso. Ninguém sabia. Ninguém suspeitava. E ele tinha algo muito especial aguardando-o na geladeira de casa.

SEGUNDO CAPÍTULO

Uma rocha através de uma janela nunca vem com um beijo.
Blue Öyster Cult
Madness to the Method

Robin Ellacott tinha 26 anos e estava noiva há mais de um ano. Seu casamento deveria ter acontecido três meses antes, mas a morte inesperada de sua futura sogra levou ao adiamento da cerimônia. Muito aconteceu desde então. Será que ela e Matthew estariam se dando melhor se houvessem trocado votos?, ela se perguntava. Eles estariam discutindo menos se uma faixa dourada repousasse abaixo do anel de noivado de safira que se tornara ligeiramente largo no seu dedo?

Tentando passar pelos cascalhos da Tottenham Court Road na segunda-feira de manhã, Robin mentalmente reviveu a briga do dia anterior. As sementes foram plantadas antes mesmo de eles saírem de casa para o jogo de rugby. Parecia que, sempre que se encontravam com Sarah Shadlock e seu namorado Tom, Robin e Matthew acabavam se desentendendo – algo que Robin mencionou enquanto a discussão, que começou a tomar forma no jogo, arrastava-se pelas primeiras horas da manhã.

– A Sarah p-provocou, pelo amor de Deus, você não percebe? Foi ela quem ficou perguntando sobre ele, várias vezes, não fui eu que comecei…

As obras sem fim ao redor da estação Tottenham Court Road obstruíam o caminho para o trabalho de Robin desde que ela começara na agência de investigação particular na Denmark Street. Seu humor não melhorou quando ela tropeçou num pedaço enorme de cascalho; ela cambaleou por alguns metros antes de recuperar o equilíbrio. Uma enxurrada de assobios e comentários obscenos emergiu de um buraco profundo no meio da rua cheio de homens em capacetes e coletes fluorescentes. Sacudindo os cabelos louro-avermelhados para longe dos olhos, o rosto vermelho, ela os ignorou, involuntariamente voltando a pensar em Sarah Shadlock e suas perguntas dissimuladas e persistentes sobre o chefe de Robin.

– Ele é estranhamente bonito, não é? Um pouco surrado, mas eu nunca liguei para isso. Ele é sexy de verdade? É um cara grandão, não é?

Robin viu o maxilar de Matthew enrijecer conforme ela tentava responder calma e indiferente.

– São só vocês dois no escritório? Sério? Mais ninguém?

“Vadia”, pensou Robin, cujo bom humor natural nunca se estendeu a Sarah Shadlock. Ela sabia exatamente o que ela estava fazendo.

– É verdade que ele foi condecorado no Afeganistão? É? Uau, então estamos falando de um herói de guerra também?

Robin tentara com todas as suas forças terminar com o monólogo de apreciação de Sarah por Comoran Strike, mas sem sucesso: ao fim do jogo, uma frieza havia se instalado nas atitudes de Matthew para com a sua noiva. No entanto, seu desgosto não o impediu de rir e brincar com Sarah no caminho de volta do Vicarage Road, e Tom, que Robin sempre achou chato e estúpido, gargalhou junto, alheio a quaisquer entrelinhas.

Empurrada por pedestres que também tentavam passar pelas trincheiras na rua, Robin finalmente chegou à calçada oposta, passando pela sombra do obelisco de concreto quadriculado que era o Centre Point e se enraivecendo novamente ao lembrar o que Matthew havia lhe dito à meia-noite, quando a briga voltara à vida.

– Você não consegue calar a boca sobre ele, consegue? Eu ouvi você para a Sarah…

– Eu não comecei a falar sobre ele de novo, foi ela, você nem estava ouvindo…

Mas Matthew a havia imitado, usando a voz genérica que representava todas as mulheres, aguda e imbecil:

– Oh, o cabelo dele é tão atraente…

– Pelo amor de Deus, você é completamente paranoico! – Robin gritara. – Sarah estava enlouquecendo pela merda do cabelo de Jacques Burger, não pelo do Cormoran, e eu só falei…

– “Não pelo do Cormoran” – ele repetiu naquele guinchado estúpido.

Enquanto fazia a curva para entrar na Denmark Street, Robin se sentiu tão furiosa quanto estava oito horas atrás, quando saíra do quarto batendo os pés e fora dormir no sofá.

Sarah Shadlock, maldita Sarah Shadlock, que tinha frequentado a universidade com Matthew e tentado com todas as forças roubá-lo de Robin, a garota que ele deixou para trás em Yorkshire… Se Robin tivesse certeza de que jamais veria Sarah novamente, estaria satisfeita, mas Sarah estaria no casamento deles em julho, e Sarah sem sombra de dúvidas continuaria a atormentar sua vida de casados, e quem sabe um dia ela tentaria se esgueirar para dentro do escritório de Robin para conhecer Strike, se seu interesse fosse genuíno e não uma mera manobra de semear a discórdia entre Robin e Matthew.

“Eu jamais vou apresentá-la a Cormoran”, pensou Robin com selvageria quando se aproximou do carteiro que estava do lado de fora da porta do escritório. Ele tinha uma prancheta em uma mão enluvada e um pacote retangular comprido na outra.

– É para Ellacott? – perguntou Robin assim que chegou perto o suficiente para ser ouvida.

Ela estava aguardando um pedido de câmeras descartáveis de papelão branco que seriam lembrancinhas do seu casamento. Suas horas de trabalho estavam tão irregulares ultimamente que ela achou mais fácil endereçar os pedidos feitos pela internet direto para o escritório ao invés do apartamento.

O carteiro assentiu e estendeu a prancheta sem retirar seu capacete de moto. Robin assinou e recolheu o pacote grande, que era muito mais pesado do que ela esperava; parecia que um único objeto grande deslizou dentro dele quando ela colocou o pacote debaixo do braço.

– Obrigada – ela disse, mas o mensageiro já havia virado as costas e lançado uma perna sobre a moto. Ela o ouviu dirigir para longe enquanto entrava no prédio.

Ela subia pelas escadas de metal que ecoavam ao redor do elevador quebrado em forma de gaiola, os saltos batendo no metal. A porta de vidro brilhou enquanto ela a destrancava e abria, e a legenda gravada – C. B. STRIKE, DETETIVE PARTICULAR – se destacava, escura.

Ela chegara propositalmente cedo. Eles estavam abarrotados de casos no momento e ela queria se atualizar com a papelada antes de voltar à sua vigilância diária de uma jovem dançarina russa.

Pelo som das passadas pesadas logo acima, ela deduziu que Strike ainda estava em seu apartamento.

Robin deixou o seu pacote grande na mesa, tirou o casaco e o pendurou juntamente com a bolsa em um gancho atrás da porta, acendeu as luzes, encheu a chaleira e a colocou para ferver, então alcançou o afiado abridor de cartas na mesa. Lembrando da recusa categórica de Matthew em acreditar que era o cabelo ondulado do flanqueador Jacques Burger que ela estivera admirando, e não o cabelo curto e – francamente – com cara de pelos púbicos de Strike, ela apunhalou a ponta do pacote com raiva, abriu-o e desmontou a caixa.

A perna decepada de uma mulher havia sido enfiada à força dentro da caixa, os dedos do pé dobrados para que coubessem ali.

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